quarta-feira, 18 de abril de 2018

Começo a rabiscar. Sim, rabiscar, pensei nessa palavra o dia inteiro. Escrever talvez seja pretensioso demais: já pressupõe que o que sai dos dedos vá ser bom ou fazer sentido. Rabiscar é um pulo, é um tiro, é um risco. Vários riscos. Então, rabisco. Falo um pouco de mim, quem sabe. Faz tanto tempo que não rabisco assim, sincero, de coração. Dia desses, uma amiga alegou sentir falta – disse que meus textos a faziam sentir saudade de coisas que não viveu. E, às vezes, escrevê-los me fazia sentir assim. Era um ato de honestidade da mais pura ordem, um ato de libertação. Passei depois a me esquivar de como sentia, a fazer pose. O texto era uma construção de uma faceta do que queria mostrar, até para mim mesmo. Algo planejado, arquitetado, como as janelas de um prédio. Não era rabisco, era escrita travada. Como redação em colégio. E eu, na minha pequenitude, também fui escrita travada. Fui forma decorada, prevista, rígida. Fui padrão social. Fui estereótipos com os quais nunca me identifiquei, e isso mata a essência. Mata a alma. Me senti desrespeitado e minha resposta a isso foi me desrespeitar. Então, percebo que sou isso – e com isso não sei o que o mundo irá fazer, mas até agora tenho sobrevivido e vivido em alguns momentos. Escolhi morar nesse apartamento pelos momentos de calma que ele me traz. Pela vista da cidade e da lua que tem a janela da sala. Pelo silêncio cheio de pensamentos quando estou sozinho aqui. Lembro-me que o achei quase sozinho, só com a ajuda de algumas indicações de amigos. Percebo o homem que venho me tornando. Percebo que, mesmo tendo sido desacreditado em quase toda a vida, consegui. Um monte de coisa. Moro na cidade que quis morar, faço o curso que quis fazer, escrevi o livro que quis escrever. Amei como quis amar. Agora, o que me falta e o que procuro – é ser como quero ser. Porque sou livro de Machado de Assis, sou citação de Descartes em francês. Sou bom dia e gesto carinhoso, e abraço e risada alta. Sou doce, sou gentil, e nisso não há problema. Quem não gosta que se vá: há quem fique. Quem me menospreza, que fique um pouco mais e veja que assim as coisas funcionam. E a quem não entende, que eu odeie o pecado, não o pecador. Agora olho esse horizonte. Amo horizontes, como quem me segue em redes sociais pode perceber. Amo essa sensação de infinitude. Essa sensação quando esquecemos que vamos morrer, quando esquecemos que o mundo acaba, quando esquecemos as bordas e limites. Quando, por alguns instantes, nada pode nos incomodar – e a realidade se submete à poesia. Não há barulho de trem, pista de carros ou festa em rua que estrague um horizonte. É só olhar, e tudo se apaga. Todos os sons se atenuam. Todas as preocupações se amenizam. É no horizonte que nasce a vontade do desbravador, essa ideia de Cabral, de ser aquilo que sempre se quis. De buscar aquilo que sempre sonhou. Sem medo. Sem pesar.

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